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quinta-feira, 5 de março de 2015

What the exchange taught me

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Everybody who have studied abroad to whom I asked for advice before I went to Groningen agreed in one point: doing an exchange is something that teaches lots of things.

To me, personally, taught to see the world and the persons in it in a very different way, much closer, much more concrete, much more marvellous; the world became smaller and bigger at the same time. Smaller because I had contact with things and people that were very far away before, and now I feel them close. Bigger because I thought I knew things before, but now that I really know more I realized for real the world has so many things to be seen and discovered and known, and I feel ashamed of the times when I arrogantly assumed I knew shit; we all know so little, and we are equal in our ignorance.

It taught me also one or two things about what does it mean to enjoy life. Is it true that we have to do expensive stuff or grand stuff or nice-to-post-to-facebook stuff to feel we are having a life worth living? Or, instead, the best moments were those when we were with people we like, talking, exchanging ideas, simply building connections with other human beings? This question is tough, and I haven't been able to digest it trough yet. When I tell my friends how many countries I visited during my stay in Europe, I feel that they think (or I project on them what I internally think myself - and in the end it doesn't really matter, either way it is something I have to overcome as a person) I haven't enjoyed fully, but how to make them understand how PRECIOUS were the days and nights I spent with my friends?

Still on the same topic, the year that passed made think and rethink a lot of things about the future, about carrer, money, success. What is the point after which we should stop having the discipline to do something we don't like but that will bring us good things in the future and start doing more stuff now that brings us good things now? Is there a middle way that allows us to conciliate present and future? I don't mean that we should surrender ourselves to mundane pleasures and fuck our health by doing so, but doesn't it make sense to think that an experience we have today will change us in such a way we will see the world and our subsequent experiences differently? Thinking like that, living the now and searching for new sensations is not recklessness, it is actually a long-term investment.

But I had not become a hippie, because the exchange also taught me that what makes lying in your bed and reading a book at night soooo good is the sensation of having had a productive day, and therefore not having the guilt of procrastination looming over your head.

The exchange put me in touch with people I would have never met otherwise. Many of those people became special, to the point of making me realize that they, before being "people I met during exchange", are simply "people". The friendships I built this year are not souvenirs from my trip to Europe, they are consequence of the impact I had on the lives of the people that had impact in my life. And even though I think this is one of the most important points I wanted to cover, I can't explain better.

What the exchange in Groningen did not teach me was how to handle this emotional luggage, this whole connection I have with the people I met and loved. Last year, when I was going, I had no idea whatsoever of how painful a simple "I miss you" could be, when you are not in the range of a hug, when you can't just go downstairs to be close again. It is confusing, but this "missing" and nostalgia feelings can be felt almost as physical pain.

Maybe that is the last lesson from the exchange, the fact that some things we don't understand and never learn how to handle. The pain of splitting is the price to pay for the privilege of bonding.

O que o intercâmbio me ensinou

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Todo mundo que fez intercâmbio a quem recorri para pedir conselhos e ajuda, antes de ir a Groningen, concordou: intercâmbio é algo que te ensina muitas coisas.

Para mim, pessoalmente, ensinou a ver o mundo e as pessoas que estão nele de um jeito muito diferente, muito mais próximo, muito mais concreto, muito mais maravilhoso; o mundo ficou menor e maior ao mesmo tempo. Menor porque tive contato com coisas e pessoas que estavam antes muito longe, e agora os sinto muito perto. Maior porque antes eu achava que conhecia coisas, mas agora que conheço mais só me dei mais conta de que tem muita coisa mundo afora pra ser vista e descoberta e conhecida, e me sinto muito envergonhado das vezes em que arrogantemente achei saber alguma coisa; todos sabemos muito pouco, e somos todos iguais na nossa ignorância.

Ensinou também uma coisa ou duas a respeito do que significa aproveitar o nosso tempo de vida. Será que temos que fazer coisas caras ou coisas grandiosas ou coisas que ficam bonitas no Facebook para sentirmos que estamos aproveitando nossa vida? Ou será que os melhores momentos foram aqueles em que estávamos com pessoas de que gostamos, conversando, trocando ideias, simplesmente construindo laços e conexões com outros seres humanos? Essa é bem difícil, e eu ainda não digeri. Quando digo para meus amigos quantos países eu visitei, sinto que eles pensam (ou projeto neles aquilo que internamente eu mesmo penso, o que de certa forma dá na mesma - o que tenho que superar é tanto externo quanto interno) que não aproveitei o suficiente, mas como fazê-los entender o quão PRECIOSOS foram os dias e noites que passei com meus amigos?

Ainda no mesmo tópico, o ano que passou me fez pensar e repensar muitas coisas a respeito do futuro, de carreira, de dinheiro, de sucesso. A partir de qual ponto devemos parar de ter disciplina para fazer algo que não gostamos mas que vai nos fazer bem no futuro e começar a fazer mais coisas agora que nos fazem bem agora? Será que não existe um caminho do meio pelo qual é possível conciliar futuro e presente? Não que devamos nos entregar aos prazeres mundanos e acabar com nossa saúde, mas não faz sentido pensar que uma experiência que tivermos hoje vai nos modelar de forma que enxergaremos o mundo e as experiências subsequentes diferentemente? Pensando assim, viver no agora e buscar novas sensações não é irresponsabilidade, é um investimento intelectual de longo prazo.

Mas não virei hippie, porque o intercâmbio também me ensinou que o que faz ler um livro antes de dormir tããão bom é a sensação de que se teve um dia produtivo, e consequente ausência de culpa.

O intercâmbio me botou em contato com pessoas que eu nunca encontraria de outra forma. Muitas dessas pessoas se tornaram especiais, a ponto de me fazer entender que elas, antes de serem "pessoas que eu conheci no intercâmbio", são simplesmente "pessoas". As amizades que fiz esse ano não são souvenirs da minha ida pra Europa, são consequência do impacto que tive na vida das pessoas que tiveram impacto na minha vida. E por mais que eu ache isso de extrema importancia, não consigo explicar melhor.

O que o intercâmbio não me ensinou foi a lidar com toda essa bagagem emocional, com toda essa conexão que fiz com as pessoas que conheci e amei. Ano passado, quando estava indo, eu não fazia ideia do quão doloroso um "I miss you" pode ser, quando não se está a poucos quilômetros de um abraço, quando não basta descer as escadas para se estar perto de novo. É confuso, mas saudade e nostalgia podem ser sentidas quase como uma dor física.

Talvez essa seja a última lição do intercâmbio, a de que algumas coisas a gente não entende e não lida mesmo. A dor da separação é o preço a se pagar pelo privilégio de ter se conectado.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

À la minuta

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A ideia quando eu primeiro pensei nesse blog não era torná-lo um blgo culinário. Mas as ideias mudam, e quando se tem alguma coisa importante ou pertinente para se compartilhar a gente vai lá e compartilha, mesmo quando é culinária. Que culinária possa ser algo importante ou pertinente é, de fato, uma das surpresas que eu tive durante esse intercâmbio. Mas vamos aos fatos, contra os quais não há argumentos.

Eu estava meio pra baixo nos últimos dias. Tenho lido bastante na internet que tristeza faz parte da vida, e que não é necessariamente algo ruim; às vezes é importante sentir-se triste. O problema no caso é quando não sabemos a razão da tristeza, daí é uma merda. Se tu sabe que o cheiro ruim vem de um vazamento de gás na cozinha, você vai lá e resolve o problema; mas o que acontece se você não perceber de onde vem o cheiro e tentar melhorar o ambiente acendendo uma vela com fragrância?

Enfim, eu estava meio pra baixo, e resolvi fazer um pouco de exercício físico e ver alguns lugares diferentes pra ver se ajudava. Peguei minha bicicleta favorita (porque agora eu tenho 3, nunca mais quero passar pela situação de ter a bicicleta roubada e ficar a pé) e pus o pé na estrada. A ideia era tentar chegar ao Mar do Norte no menor tempo possível. (Que fique registrado que embora tenham me dito que se leva de 1h30 a 2h para chegar lá a partir de Groningen, eu levei 1h15.) Cheguei lá, me espraiei na grama que cresce em cima do dique que protege a Holanda de uma eventual subida no nível do mar e passei algum tempo sozinho com meus pensamentos. Voltei.

Relaxando no fim do mundo. Estou em cima do dique, uma colina feita pelo homem que se estica praticamente infinito pros lados, e protege do mar. Impressionante.
Exercícios físicos e ver coisas novas me inspiram pra fazer mais coisas diferentes. E além disso eu estava com fome suficiente para comer uma vaca pela perna por causa de todo o esforço de pedalar os 25 quilômetros sempre tentando ir mais rápido. E de alguma forma a ida até o Mar do Norte e a coisa toda de passar um tempão sozinho me lembraram de quando eu era criança, brincando no pátio de casa e tal. A resposta lógica foi então fazer um prato que eu nunca tinha tentado fazer, e que é muito brasileiro apesar do nome francês(?): à la minuta.

No caminho para casa passei no supermercado e conversei com o açougueiro até estar convencido de que o bife que ele estava me vendendo era de fato o que a minha mãe costumava fazer quando eu era piá. E aqui um parênteses para o preço: dois bifinhos custaram 6 euros. O que dá mais ou menos 22 euros por quilo. Isso é 67 reais(!!!). Ou seja: eu não poderia de jeito nenhum errar alguma coisa e no fim ter que tocar a coisa toda fora. Por isso acionei os universitários.

Conversei com a minha mãe pelo Skype durante uns 15 minutos para que ela explicasse para mim e para a Iris - minha amiga da Espanha cuja assistência eu convoquei para diminuir a chance de fracasso e segundo a qual o Português da minha mãe é muito mais fácil de entender do que o meu - como é que se fazia a tal à la minuta. Instruções dadas, metemos a mão na massa.

Para quem estiver interessado na receita da minha mãe, segue a minha versão (dessa vez não tem chinesa rindo do fato de que eu janto sucrilhos, porque eu não janto mais sucrilhos; mas tem um argentino que empresta papel toalha e um indiano que aprova as batatas fritas):

Primeiro ponha em um prato os bifes que serão preparados. Se eles não tiverem sido batidos, faça o serviço. Pique (ou pica? Português é difícil mesmo pra falantes nativos) dois dentes de alho e tempere os bifes com o alho picado e ponha sal a gosto. Deixe os dois pedaços de vaca morta esperando a sua vez de novo.
Descasque as batatas e pique elas também, de forma que os pedaços fiquem um pouco mais finos (mas não muito!) do que um dedo mindinho não destroncado. Com as batatas prontas tu já pode botar o arroz pra cozinhar e o óleo na frigideira pra esquentar. Quando o óleo estiver quente, ponha as batatas lá e tente não deixar elas queimarem.
Em paralelo (cozinhar coisas em paralelo é uma habilidade recém adquirida, impensável um tempo atrás) ponha um pouquinho de óleo em outra panela, com uma pitada de açúcar pra dar cor. Ponha os bifes lá e fique virando eles de vez em quando, tomando todo o cuidado do mundo para que eles não queimem e tu tenha que vender um rim para comprar mais. Depois de uns 4~5 minutos (de acordo com o açougueiro) os bifes devem estar prontos. É hora de adicionar a meia cebola que você esqueceu de deixar cortada. Corta ela na velocidade da luz e acrescenta ao bife. Deixa a cebola trocar uma ideia com o bife e está pronto. A essa altura a batata frita já está no prato (devidamente coberto pelo papel toalha do argentino e devidamente aprovadas pelo indiano). O arroz também, ou talvez leve ainda mais alguns minutos.

Depois disso tudo, preparamos a mesa, tirei umas fotos porque estava bonito demais pra deixar passar, e começamos a comer como se comer fosse algo que nos mantem vivos.
Não sou de me gabar dos meus dotes culinários, porque a galinha frita e o arroz são fáceis, a massa com molho de tomate e galinha tem efeitos gastrointestinais indesejados e a lentilha tem por enquanto uma taxa de sucesso de 50%, mas dessa vez, com a ajuda das pessoas citadas, eu acertei. O prato ficou na minha opinião a duas pitadas de sal da perfeição culinária. Aquilo não foi uma refeição, foi uma experiência espiritual que transcende o paladar, foi uma viagem no tempo até os momentos tranquilos da minha infância em que o desenho acabou e o almoço começou, e subitamente estou à mesa com meu pai e minha mãe, é meio-dia, a luz entra pela janela refletida na parede de tijolos aparentes da escola ao lado da minha casa e filtrada pela cortina enxadrezada vermelha com bordas de tricô que minha mãe fez ela mesma, os azulejos da cozinha tem cara de infância também, um vento morno entra preguiçoso pela porta da área de serviço junto com a cachorrinha Tasmânia (coisa do meu pai, que gostava de dar nomes interessantes para os cachorros que achava na rua; tivemos também uma Pretória), ao fundo podemos ouvir o som alto da televisão da minha vó, sempre sintonizada no Silvio Santos ou no Raul Gil, a televisão e a minha vó, que já não escutava muito bem, e também escutamos as crianças correndo e brincando na escola, e o papagaio da vizinha falando que vai chamar o cachorro, e na mesa tem o arroz soltinho, o bife acebolado e a batata frita, crocante por fora e macia por dentro, e é tudo tão perfeito e tranquilo que eu até digo pra Iris que dá vontade de chorar. E subitamente estou de volta ao presente, o prato está limpo e eu estou com a sensação de quem acabou de ser transportado pra longe em pelo menos 4 dimensões.

Tomatinhos, vagem, arroz, batata frita e bife. Pra ser uma completa à la minuta ainda falta ovo frito e feijão, mas desse jeito já estava muito bom.
Possivelmente não poderei repetir o feito, porque a coisa toda é muito dependente do meu próprio estado de espírito. Só posso dizer que cozinhar não só é divertido como também às vezes chega a ser terapêutico.

Tot ziens!

PS: uma mensagem ao meu eu do passado: vai se ferrar com essa história de caldinho! O fato é que o suquinho da carne que tu gosta de botar no arroz não é uma coisa que depende de quem cozinha, é assunto pessoal da vaca e da panela, não tem muito o que se fazer a respeito. Dessa vez o caldo apareceu, mas como minha mãe fazia para ter aquelas quantidades luxuriantes de caldinho continua a ser um dos Mistérios Inescrutáveis da Minha Existência. Um abraço, Tu Do Futuro.

À la minuta - english

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At first the main idea for this blog wasn't to be a culinary blog. But ideas change, and when one has something important or relevant to share one doesn't care and shares it, even if it is about cooking. That culinary can be something important or relevant is, as a matter of fact, an idea that still amazes me, and was one of the many surprises of this year. But let's face the facts, against which there is no arguments.

I was feeling kind of blue in the past few days. I have read a lot on internet about sadness being part of life, and not necessarily a bad thing; sometimes it is important to feel sad. The problem is when we don't know the reason for the sadness - then it is a pain in the ass. If you know the bad smell you are feeling is a gas leak in the kitchen, you just have to go to the kitchen and end the leak; but what happens if you don't notice the source of the bad smell and tries to purify the air lighting a perfumed candle?

Anyway, I was feeling kind of blue, and decided to do some physical exercise and see some different places, in the hope that that would help to enlighten my mood. I took my favourite bike (because now I have 3, never ever again I want to be in the situation of having a bike stolen and being left on foot) and hit the road. The idea was to try to get to the North Sea in the shortest time possible. (For register sake: even though some people told me it would take almost 2h to get there, I got there in 1h15). I got there, found a comfortable spot in the grass atop the dyke protecting The Netherlands from an eventual rise in the sea level and spent some time alone with my thoughts. Then I came back.

Chilling in the end of the world. I am lying in the dyke, a huge man-made protection against the sea, stretching apparently forever in both directions. Very impressive.
Physical exercise and seeing different things inspire me to do more different things. And besides that, I was hungry enough to eat a cow by her leg (sorry, this makes much more sense in Portuguese) with what all the effort of pedalling the 25km and back always trying to go faster. And somehow going there and spending that time alone reminded me of the past, playing in the courtyard of my house and stuff. The logical answer was then making a dish I never tried before, which is very brazilian despite the name being kind of french: à la minuta.

On the way home I dropped by in the supermarket and talked to the butcher until I was completely convinced that beef he gave me was the same my mother used to cook when I was a child. And here a parenthesis about the price: two little pieces of beef costs 6 euros. That is more or less 22 euros by kg. This is R$67,00(!!!). In other words: I could not by any means screw anything up and in the end have to throw it all away. That is why I called the specialists.

I talked to my mom via Skype for 15 minutes so she could explain to me and to Iris - my friend from Spain whose assistance I requested in order to decrease the chance of failure and according to whom the Portuguese of my mother is much easier to understand than mine - how to make à la minuta. Instructions given, we started the actual work.

For those of you interested on my mother's receipt, it is as follows (and this time there is no chinese girl laughing of the fact that I eat cereal for dinner, because I don't do that anymore; there are, however, one argentinian guy who gives napkins and one indian guy who approves the french fries):

First of all put in a plate the beefs to be prepared. If they are not beaten up (to be softened), do yourself the job. Chop two cloves of garlic and spice the beefs with the chopped garlic as well with as much salt as you think is ok. Let both pieces of dead cow waiting in the plate.
Peel some potatoes off and chop them, in such a way the pieces are not too much smaller than a healthy littlefinger. After preparing the potatoes you can start cooking the rice and heating up the skillet. When the oil in the skillet is hot enough, put the chopped potatoes there taking care to not let them burn.
In paralel (paralel cooking is a very recent acquired skill) put a tad of oil in another pan, with a pinch of sugar (to give colour to the thing). Put the beefs in it and keep turning them, being very very careful so you don't have to sell your kidneys to buy more. After 4 to 5 minutes (according to the butcher) the beefs should be ready. It is time to add the half an onion you forgot to chop beforehand. You chop it at the speed of light and put it together with the beef. Let the onion have a good time with the beefs and then it is done. By now the french fries are already in the plate (properly covered with the napkin of the argentinian and properly approved by the indian). The rice too, or maybe it will take some more minutes.

After all that, we prepared the table, I took some pictures because it was too beautiful to miss the opportunity, and we started to eat as if eating were a thing that keeps us alive.
I don't usually boast about my cooking skills, because fried chicken and rice are easy, my pasta with chicken and tomato sauce has some unfortunate gastrointestinal side effects and my lentil has so far 50% success rate, but this time, with the help of the mentioned people, I did it right. The dish in my humble opinion was 2 salt pinches from culinary perfection. That was not a meal, that was a spiritual experience transcending palate, it was a time travel back to the peaceful times of my childhood, when the morning cartoon was over and I knew the lunch was about to start, and suddenly I am at table with my father and my mother, it is noon, the light enters through the window reflected in the brickwall of the school beside my house and filtered by the plaid curtains with knitted borders that my mother knitted herself, the tiles in the kitchen also feel like childhood, a warm wind lazily enters through the open door in the laundry following our dog Tasmania (she were named by my father, who liked exotic names; we also had another one named Pretoria), in the background it is possible to hear the high volume of the sound of my grandmother's television, perennially tuned on Silvio Santos or Raul Gil, the television and my grandmother, who at that time already couldn't hear very well, and also was possible to hear the children playing and running in the school, and the neighbour's parrot randomly shouting curses, and at the table there was the fluffy rice, the beef with onions and the french fries, crunchy outside and soft inside, and everything is so perfect and peaceful that I go as far as to tell Iris I am about to cry. And all of a sudden I am back to the present, the plate is empty and I have the sensation of having been transported very far in at least 4 dimensions.

Small tomatoes, the green thing that I don't know the name in english, rice, french fries, beef. To be a complete à la minuta still would be necessary fried eggs and black beans, but it was awesome like this anyway.
It is likely I won't be able to repeat the experience, because the whole thing depends on my state of mind. I can only say that cooking not only is funny, but also sometimes can be very therapeutic.

Tot ziens!

PS: a message to Me From The Past: fuck you with all this bullshit about the juice from the meat. The fact is that the juice you like to put over the rice is not something easy that depends on the person cooking, it is a personal matter between the cow and the pan, there is nothing much to be done about it. This time the juice was there, but how my mother made to have those luxuriant amounts of juice is still among the Inscrutable Mysteries of My Existence. Best regards, You In The Future.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Revendo conceitos

Ou: "Por que um cara-de-pau nunca se perde".

    Modelos são importantes para a ciência porque é através deles que descrevemos o mundo que nos cerca e como esperamos que as coisas aconteçam; e são eles que mudamos quando as coisas não acontecem como esperávamos. Eu, por exemplo, achava que a Europa era um amontoado de pontos históricos com pessoas que tinham trocado seus corações por pedaços de gelo. No fim a realidade é que de fato qualquer banco de praça é potencialmente O Banco de Praça Onde Aconteceu Algo Durante a Segunda Guerra Mundial, mas eu estava errado sobre os corações das pessoas.

    É claro, antes de mais nada, que tudo o que eu escrevo aqui baseia-se exclusivamente na minha visão pessoal das coisas. Você, leitor filósofo, pode inclusive nesse momento argumentar que pessoa nenhuma é capaz de escrever nada senão a partir da sua visão pessoal das coisas, mas aqui quero deixar explicitamente claro que tudo o que vier a seguir (e tudo o que veio antes também; basicamente tudo) é baseado no que eu, um cara com a minha idade e minha história de vida e minha personalidade e tudo o mais que for relevante para construir uma visão pessoal, tenho percebido aqui em Groningen, Reino dos Países Baixos, nesses quase três meses que tenho estado aqui. É o suficiente para conhecer uma cidade? Não. É o suficiente para conhecer e falar sobre as tradições, a cultura, os costumes de um povo que já era velho quando o Brasil foi colonizado por Portugal? Hell no. Mas a gente tenta mesmo assim, e quem não gostar que bote contra.

    Quando eu cheguei aqui eu precisei de ajuda para grande parte das coisas. A máquina de lavar estava em holandês, culinária era uma arte ainda inexplorada por mim e no geral eu não sabia nem chegar no mercado sozinho. Mas, para minha sorte, o povo europeu (ok, eu só posso falar do pessoal da Holanda, e mais especificamente de Groningen, e ok, esse é um público bastante específico, uma vez que Groningen é uma cidade universitária e etc, etc, releia o parágrafo anterior e eu tentarei não transformar esse blog em uma selva de ressalvas) não é frio como eu imaginava.
    Eles obviamente não vão intrometer-se em sua vida sem serem chamados, já que eles estarão muito bem envolvidos nos próprios objetivos e problemas.
    No início eu achava até estranho como eu não recebia nenhum olhar desconfiado ou divertido nos bicicletódromos estacionamentos de bicicletas, enquanto eu tentava descobrir – e conseguia, depois de uns bons 15 minutos investigando – como funcionava o lock da bicicleta ou como diabos se fazia para estacioná-la na parte alta do bicicletódromo estacionamento de bicicletas. As pessoas simplesmente passavam por mim e iam fazer seja lá o que elas estavam indo fazer.
    Acorrentar a bicicleta nesses lugares eu podia fazer sozinho, mas achar o caminho de volta pra casa, depois de uma tarde inteira de exploração dos bairros? Aí o buraco é mais embaixo. Quando não se tem ainda um celular com Google Maps, o que se tem que fazer é engolir a vergonha (se houvesse), encarar do alto da minha altura mediana os olhos indiferentes do holandês de altura normalmente não-mediana que estiver passando e mandar corajosamente o conhecido “Excuse me, do you speak english?”.
    E aí veio a surpresa. Toda a vez que precisei de ajuda e pedi, a pessoa saiu totalmente do seu mundinho particular e me ajudou. Teve um senhor que andou uma quadra inteira comigo para ter certeza de que eu tinha entendido a sua explicação. Teve aquela mulher no mercado sobre a qual já falei que me escutou atentamente explicar-lhe como era aquela coisa de cozinha que eu estava procurando (alho). Uma vez a pessoa até desenhou num papel pra mim o caminho até o mercado. Eu senti que elas realmente queriam ajudar a resolver o meu problema logístico, fosse qual fosse; queriam dar suporte a um estudante longe de casa.

    Provavelmente tem a ver com o fato de que as pessoas que me ajudaram não estavam em nenhum nível desconfiadas que eu poderia lhes assaltar, porque esse tipo de situação praticamente não existe na vida delas (o assalto, não a ajuda), mas não sei. Acredito que a coisa toda da gentileza gerar gentileza e a ideia de se viver em um lugar sem violência são dois conceitos que se relacionam fortemente. Vai saber, talvez ser legal com os outros seja uma coisa legal também.

    (e não estou dizendo que gentileza não existe no Brasil, porque tem muito disso lá sim, mas acho que é mais apesar da violência, algo cultural forte mesmo)

    Então, concluindo, tive que atualizar meu modelo sobre as pessoas da Europa. A gente se prepara para enfrentar todas as adversidades do mundo, mas acabamos surpreendidos mesmo é pelo contrário. Hoje em dia eu já tenho Google Maps no celular (e um tradutor também), mas quando há necessidade eu prefiro ainda perguntar pra uma pessoa aleatória na rua. Muito mais divertido!


Como parte das minhas tentativas de retornar toda a ajuda recebida, ajudei esse pobre homem a achar suas lentes de contato. Enxergar mal é f*da.
Holandeses são na verdade muito amigáveis. Rick, o senhor de 10 anos que está comigo na foto, deixou inclusive que eu lhe fizesse carinho atrás da orelha e na barriga. Eu não falar holandês não foi um problema.


Tot ziens!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Anatidaefobia

O medo é um instrumento evolutivo poderoso. Quando se vive no tempo das cavernas e se vê dentes pontiagudos, garras letais e um olhar nada amigável há duas possibilidades: um tigre-dentes-de-sabre encontrou o seu esconderijo na montanha ou sua sogra passou para dar uma visita. De uma forma ou de outra, é prudente estar com medo.
Nos tempos mais recentes em que tigres-dentes-de-sabre não são um problema do dia-a-dia, o medo se revela de formas mais criativas. Medo de altura, medo de lugares abertos (e fechados), medo de ficar sozinho, medo de ficar numa multidão, medo da sombra - até de medo de estar sendo observado por patos já ouvi falar. Até onde eu sei de psicologia, pode nem ter a ver com a coisa em si; o medo é só um sintoma de alguma questão mais profunda, portanto pode ter muito mais por trás dos patos.

Agora estou quase completando duas semanas de intercâmbio (ou: "oi, meu nome é Marcus...", "oi Marcus!" "...e faz duas semanas que eu não estou no Brasil") e tive que enfrentar alguns medos. Primeiro, antes mesmo de vir, eu tive que enfrentar o medo da inscrição pro intercâmbio, que pode parecer pequeno, mas dar o primeiro passo aterroriza. Mais tarde, o pesadelo kafkiano de ter que lidar com toda a burocracia envolvida e o medo de esquecer algum detalhe. O medo de não ter ninguém por perto aqui. O medo de não se adaptar aqui. O medo de fazer algo errado. Teve vários momentos em que eu deitava na minha cama aqui, olhava para o teto e percebia o quão longe eu estava de todo mundo que eu conheço. Aquele misto louco de solidão e independência, o sentimento misturado de quem adora conhecer pessoas novas mas que por outro lado ama os amigos que já tem.
Mas no fim das contas, passar por todos esses obstáculos só está fazendo a coisa toda mais valiosa. Isso me demonstrou que o verdadeiro crescimento vem quando você enfrenta o que te deixa acuado, quando você dá aquele passo sem que ninguém te dê garantias de que adiante vai haver chão para pisar, quando você sai da zona de conforto e se aventura seja aonde for que você vai.

Por causa da minha natureza cética e questionadora, eu sempre falei que as pessoas deveriam sobretudo pensar sobre o que estão fazendo. Agora eu vejo que na verdade é muito importante também agir, e lidar com o que vier de consequência. Tudo bem sentir medo do tigre, desde que você se lembre de pegar a sua lança para se defender (e dependendo da sogra, talvez valha o mesmo).

Ou seja: encare os seus patos!

Perto de casa tem esse parque com alguns laguinhos, e patos nos laguinhos.

É só estacionar a bicicleta que eles já vem pra perto para serem alimentados.

Além dos patos tem esses outros pássaros aí que roubam os pedaços de pão que eu estou tentando dar pros patos.

Esse saiu do 9gag e está dizendo "Não seja paralisado por seus medos!".

Vai dizer, muito bonitinho.
Knuffel! (descobri recentemente que "omhelzing" é na verdade bem formal, então essa outra forma para "abraço" é mais apropriada)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Adaptação

Segundo Darwin, sobrevive o bem adaptado às circunstâncias, e as circunstâncias mudam. Por exemplo a galinha, que por causa da domesticação humana adaptou-se e ficou saborosa.
Quando eu vim para cá, tinha ideia sobre algumas das dificuldades que eu encontraria em ter que lidar com tanta gente nova e com uma cultura totalmente diferente da que eu estava acostumado. Acontece que eu não estava totalmente ciente de uma característica minha, bem relevante quando se tem que ser independente em um país novo, fruto da minha criação de filho único e paparicado: eu não sei cozinhar.
Bom, não é que eu não saiba fazer nada; alguma coisa eu sei fazer na cozinha. No entanto, não se pode viver de torrada com ovos mexidos (por mais maravilhoso que esse prato seja quando eu faço; questão de prática), nem de Pringles ou cookies ou Twix (que são bem baratos aqui). É tudo muito gostoso, mas chega uma hora que ou a espécie evolui ou é extinta.
Por isso parti pra internet em busca de ajuda, e meu amigo Jan Luc, que mora sozinho a mais tempo que eu, me ensinou a fazer frango frito, via Facebook.

Seguem as instruções, como eu as segui:

Ingredientes:

- uma peça de frango (embora frango não seja Lego; aqui, por peça, refiro-me àquele corte em que a coxa e a sobrecoxa vêm juntas);
- três dentes de alho (que pode ser bem difícil de achar no supermercado caso você não se lembre o nome em inglês: é garlic; alternativamente, apele para o seguinte pedido: "onde está aquela coisa, parecida com cebola, mas menor, e que quando uma pessoa come demais fica com mau hálito?");
- uma xícara de arroz;
- óleo;
- sal;
- água.

Instruções:

Ponha numa panela um pouco de óleo, sal e um dente de alho picado. Ponha numa frigideira bastante óleo e os outros dois dentes de alho picados. Leve a primeira panela ao fogo (apenas a primeira, porque convenhamos que tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo é pedir para cagar com tudo). Deixe o alho fritar por um momento e então ponha o arroz na panela. Rapidamente coloque água de forma que fique mais alto do que o arroz, e deixe a panela daquele jeitinho com a tampa em cima mas sem fechar completamente.
Nesse momento, cumprimente a chinesa que acabou de entrar na cozinha e mostre pra ela o que está fazendo. Isso é importante para a receita porque no dia anterior a chinesa riu quando soube que você estava jantando sucrilhos.
Assim que a chinesa voltar para seu quarto, prepare a galinha (na embalagem diz "kippenbout") passando-lhe um pouco de sal. Deixe-a esperando na bancada. Ela não vai se importar porque está morta.
O arroz talvez esteja pronto quando a água secar, mas isso não é 100% garantido. Quando a água seca, o processo volta a ser interativo e você fica provando o arroz; enquanto não estiver pronto, acrescente mais água.
Assim que o arroz estiver pronto, leve a frigideira para o fogão, em fogo baixo porque - repitamos - você não tem tanta experiência assim. Deixe a misturinha fritar um pouco, e em seguida acrescente a peça de galinha já temperada com sal à jacuzzi de óleo fervente. Este momento é crítico: você vai se queimar. Conforme-se.
Como a frigideira é muito grande, você vai ter que segurá-la inclinada de modo que o óleo fique mais fundo e em contato com uma maior porção da superfície da galinha. Você deve torcer para que ninguém entre na cozinha nesse momento, porque o jeito que você segura a frigideira para não se queimar é no mínimo cômico. Vire a galinha de vez em quando, e quando parecer pronto você espera mais um tempo e daí está pronto mesmo.

O resultado é um prato de arroz e galinha frita que ficou quase, mas não totalmente, completamente diferente do que quando a minha mãe faz. O arroz ficou um pouco empapado, porque deveria ter ficado mais tempo no fogo e/ou deveria ter recebido menos água. A galinha até que ficou boa, mas mais por mérito dela e do Darwin do que meu. E mesmo assim, foi uma janta bastante decente e, creio eu, muito boa para uma primeira vez.


"Hmmmmm"
Omhelzing!

Adendo (11/02/2014): refiz a receita, agora passando o alho na galinha e a galinha no trigo antes de fritar, e botando menos água no arroz e o resultado foi beeem mais satisfatório.