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domingo, 7 de setembro de 2014

As novidades e viver

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Já faz algum tempo que eu não escrevo nada sobre essa "nave louca" (BIAL, Pedro), e os motivos são diversos, dependendo do período. Primeiro, quando eu estava de férias, eu simplesmente não saberia sobre o quê e mesmo que soubesse não conseguiria escrever nada porque não é assim que a minha inspiração funciona. Eu preciso de agitação pra ter ideias, e preciso de falta de tempo para ter vontade. O que me leva ao segundo motivo: assim que as férias terminaram, tudo começou a acontecer tão depressa que eu não cheguei a ter tempo para escrever. Mas agora as coisas deram uma acalmada e por isso estou aqui.

Semana passada aconteceu a ESN Introduction Week, onde os estudantes internacionais que chegaram para o próximo ano letivo são apresentados a esse pequeno pedaço de paraíso chamado Groningen. Quem organiza é o ESN (Erasmus Student Network) de Groningen, mas como são muitos novos estudantes - esse ano tivemos 1200 (!), e dizem que isso faz de Groningen a cidade com a maior Introduction Week da Europa (!!) - eles precisam de ajuda. E eu, que reconhecidamente tenho o superpoder de ser fisicamente INCAPAZ de ficar longe do furdunço, me alistei para ajudar.

As atividades são basicamente para conhecer a cidade, praticar esportes e aprender coisas novas, mas o principal é conhecer gente. Os estudantes são divididos em grupos, e cada grupo tem dois guias (guides). No meu caso, eu e o Alex eramos os guides do grupo #62. A semana personifica (para personificar teria que ser uma pessoa, o que se diria nesse caso?) o espírito do intercâmbio: vivenciar o máximo. Mas é claro que "vivenciar o máximo" pode significar o que você quiser, por isso prolongar-me-ei no assunto (e nas mesóclises).

Por várias vezes tentei começar um texto tentando explicar o que mudou na minha percepção do que é "melhor", do que é "mais preferível" quando o assunto é viver. Nunca negar uma festa ou ficar em casa assistindo um filme? Mesmo agora esse parágrafo, que quando chegar à sua mente estará na versão final, posso dizer agora que está sendo bem difícil de escrever também.

É difícil de escrever por que não é uma coisa simples. E quem diz que é simples, mente. Não é simplesmente uma questão de "preparar-se para o amanhã" vs. "aproveitar o agora", como era nos tempos da vovó. Não é "certinho" vs. "irresponsável", mas também talvez seja um pouco...
É mais uma coisa de deixar-se ser espontaneo, de escolher o caminho que vai desencadear mais emoção e memória, de fazer o que desperta mais vontade. É um desperdício viver um dia que não será lembrado, e ainda assim nós fazemos isso na maior parte dos dias. Então talvez a pergunta certa seja "o que torna um dia memorável"? E a resposta também não é fácil.

Quando eu vim para cá, achava que ia viajar a Europa inteira, ia conhecer todos os pontos turísticos do mundo, comer todas comidas típicas e tirar selfies na frente de todas estátuas famosas. Mas a realidade é outra, o dinheiro não é infinito, e uma coisa que eu notei em uma viagem que eu fiz pra Bélgica com alguns amigos é que o que conta na frase "uma viagem que eu fiz pra Bélgica com alguns amigos" não é "uma viagem que eu fiz pra Bélgica" e sim "com alguns amigos". Todos os momentos importantes que eu lembro eram por causa de quem estava comigo, e não por causa de onde eu estava. E a comida típica em qualquer lugar da Europa, até onde eu sei, é o kebab mesmo.

Isso não significa que estar com os amigos na Bélgica não seja melhor que estar com os amigos em casa, mas é que depende... E ah, como isso é deliciosamente complicado.

Não iniciei esse texto pensando em dar alguma conclusão para o assunto, provavelmente vai demorar muito até que eu me decida por uma ideia. E depois posso mudar de ideia de novo.

O fato é que seja qual for a moral, a semana passada personifica (sim, é estranho, já passamos por isso) a dita moral. Conheci gente pra caramba, gente boa pra caramba, me surpreendi como a diversidade de um grupo contribui sobremaneira para a coesão e sucesso do grupo (e um dia ainda escreverei a respeito... tenho minhas ideias mateológicas a respeito, e acho muito que deveriam criar algo como uma sociodinâmica, assim como existe a eletrodinâmica, a hidrodinâmica, etc., se alguém souber algo a respeito me avise), participei de uns workshops diferentes, joguei uns esportes que eu nem sabia do que se tratavam. A semana era pros estudantes novos, mas mesmo eu como Guide curti horrores.

O que eu posso dizer de positivo é que descobrir o que estou tentando descobrir é difícil, mas parece que uma vez descoberto, é fácil viver de acordo. E não precisa de dinheiro, não precisa ser em um lugar muito diferente. O mundo está cheio de coisas interessantes, e várias delas estão perto de nós, independente de onde estejamos.

A menos que você esteja no meio do oceano Pacífico. Nesse caso não tem nada de interessante em um raio de vários quilômetros.

Tu encontra todo tipo de gente nesse mundo. Na foto, o grupo #62.

Time badass de Lacrosse. Jogamos também Floorball e Squash, nenhum dos quais eu fazia a menor ideia de como se jogava; no entanto, após cinco minutos de Squash já estávamos discutindo negócio e valores de ações. Próximo passo é fechar negócio jogando golfe.


Tot ziens!

domingo, 1 de junho de 2014

Frisbee

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      Sei que tinha prometido que não usaria esse blog como diário, e se não é a primeira vez que digo isso talvez também tenha prometido que nunca mais pediria desculpa por usar o blog como diário mesmo tendo prometido o contrário. Exposta minha consciência do fato, e do fato sobre o fato, tenho que dizer que alguns episódios não podem ficar sem serem narrados, por inúteis e sem importância que pareçam, porque pra mim foram significativos. Um desses é o causo do frisbee preso na árvore.
      Há três semanas fomos eu e uns amigos curtir um tempo bom no Stadspark. Lá é tipo a Redenção de Porto Alegre, só que menos movimentado. Achamos uma clareira para estacionar as bicicletas e começamos a jogar o frisbee que compramos no caminho. Não é bem um frisbee, os puristas poderiam dizer, uma vez que é daqueles furados no meio, uma espécie de disco - se for permitido a analogia nerd, como a coisa em questão é amarela, é exatamente como um anel de força do Sonic.
      Pois bem, todos sabem que a cautela e a precaução em quase todo tipo de atividade conforme passa o tempo dão lugar a seus primos feios descuido e experimentação irresponsável. E por causa disso o frisbee, entre uma jogada e outra, acabou indo parar numa árvore.
      Antes de prosseguir na narrativa, acredito ser relevante uma contextualização psicológica.
      Este que vos fala nasceu da terceira gestação de um casal que queria muito ter um filho. Por motivos de saúde, as duas gestações anteriores não tinham dado certo. Talvez por isso, acabei sendo super protegido pelos meus pais. Então eu brinquei muito na areia, me sujei muito, mas nunca me deixaram fazer nada muito perigoso, como andar em qualquer brinquedo de parque temático que não seja o carro-choque ou subir numa árvore.
      E daí vem o fato seguinte. Juntei toda minha coragem e vontade de preencher aquela falha na minha criação, e subi na árvore. Nada muito espetacular, é claro, no segundo galho eu já conseguia balançar o lugar onde o frisbee se enfiou e consegui derrubá-lo. O placar, então, estava Nós 1 x 0 Frisbee.
      Esse não era o causo inteiro, a história não termina por aí.
      Uma semana depois, repetimos a dose, agora com barbecue e mais amigos. De novo, o tempo passou e com ele a cautela, e quando nos demos por conta o frisbee estava em cima de uma árvore (outra) novamente. Dessa vez muito mais alta, totalmente fora de cogitação subir até lá em cima. Isso era um domingo. Ficamos por lá até altas horas do fim de tarde (tipo 20h, sol alto ainda: esses meridianos acabam com minha noção de tempo), tocando galhos a ver se derrubávamos o dito, e nada. Nós 1 x 1 Frisbee.
      No dia seguinte, e no dia seguinte àquele, voltamos ao parque mas sem sucesso. Se pensaria que num lugar plano como os Países Baixos o vento é forte, mas aparentemente isso só é verdade quando o vento é contra e você já está cansado de pedalar. Fizemos mais algumas visitas, em uma delas um casal de holandeses inclusive me ajudou a atirar pedaços de árvore morta na árvore viva, mas mesmo eles tendo uma pontaria muito melhor do que a minha, não tivemos sucesso. O placar, a essa altura, já estava em Nós 1 x 4 Frisbee.
      Evidentemente cada vez mais derrotados, demos um tempo ao frisbee. Fomos cuidar das nossas vidas. Mas uma sequência de eventos me deu uma injeção gratuita de motivação. Resolvi uma tarefa de Program Correctness muito antes do prazo, fomos ao show do Tropkillaz no Haarlem, ganhamos um monte de pontos no FourSquare em função disso, terminei de ler uma biografia do Paul Erdös, joguei malabares no parque; essa sequência de êxitos me deu gás para tentar o próximo. Me armei agora de corda de varal e fui-me pro parque.
      O café e a persistência foram vitais para o sucesso da operação, tanto quanto a corda. Por uma hora, fiquei arremessando um toco enrolado na corda de varal na árvore, tentando enganchar o toco de forma a balançar o galho do frisbee. Desenvolvi praticamente uma ciência da recuperação de brinquedos voadores, tudo calculado para aumentar a precisão dos lançamentos e diminuir o dano à pobre árvore. Em determinado momento derrubei o frisbee uns 3 metros. Onde ele estava agora seria mais difícil de alcançar com a técnica da corda, a luz do dia já se esvaía, e a situação desesperada pedia medidas desesperadas. Pus-me a escalar a árvore.
      Eu, o garoto certinho que nunca quebrou um osso na vida, dependurado numa árvore a pelo menos 6 metros de altura tentando recuperar um frisbee perdido. Não ousaria ir mais alto, mas o frisbee ainda se encontrava fora do alcance da minha envergadura de 1,70. Mas, como que por um lapso de generosidade do acaso, bem ao meu lado à distância de uma esticada de braço havia um galho caído que usei para pescar o maldito frisbee. Momentos de tensão se passaram enquanto eu passava o brinquedo da árvore para o chão, mas quando vi que o frisbee estava finalmente a salvo no chão, no background da minha mente tocava a música de triunfo do Airton Senna (pa-pa-paaa, pa-pa-paaa...). Desci da árvore ao som de aplausos imaginários.

      É que chega uma hora na vida do cara que ele tem que decidir se é homem ou se é rato. Daria para traçar paralelos com outros aspectos da Vida e do Universo, abstrair a coisa toda para um cara fazendo coisas que não está acostumado a fazer, se permitindo a ir além da zona de conforto, mas acho que vou me manter no bom e velho Natureza versus Homem. Homem versus Frisbee.

      Eu estou todo lanhado, todo estrunchado de ficar tocando pesos na árvore, mas dane-se, eu recuperei o frisbee.

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      I know I have promised I would not use this blog as a diary, and if this is not the first time I am saying this probably I also have promised I would never again apologize about using the blog as a diary even having promised otherwise. Having exposed my knowledge of this fact, and the fact about the fact, I must say that some episodes simply can't go without being narrated and shared, however useless and unimportant they may seem, because to me they were important. One of these episodes is the one about the frisbee that got stuck in the tree.
      Three weeks ago I and some friends went enjoying the good weather in Stadspark. This place is like the Redenção in Porto Alegre, but with less people. We found a glade to park our bikes and started playing with a frisbee we bought on the way there. It is not actually a frisbee, the purists might say, it is one of those with a hole in it, some sort of disc - if the nerd analogies are allowed, as the thing is yellow, it looked exactly like a Sonic's power ring.
      Well, everybody knows that care and caution in almost any activity as times goes by give place to their ugly cousins neglect and irresponsible experimentation. And because of that the frisbee end up in a tree.
      Before proceeding to the rest of the narrative, I believe is relevant some psychological contextualization.
      I was born the third pregnancy of a couple that wanted very bad a baby. Due to health issues, the first two pregnancies did not worked out. Maybe for that, I was raised almost in a bubble. Yes, I played in the sand, got dirty a lot, but never did anything that was by any means dangerous, like going in any theme park toy that was not the bumper car (is it called like that in english?) or climbing a tree.
      And then it comes to the next fact. I gathered all the nerve and will to fulfill that gap in my childhood, and climbed the tree. Nothing too spectacular, of course, in the second branch I stepped on I already could swing the branch where the frisbee was stuck and I could manage to get it. The score, then, was We 1 x 0 Frisbee.
      This was not the whole history, it doesn't end there.
      One week later we repeated everything, now with a barbecue and more friends. Again, time passed and with it the caution, next thing we know is that the frisbee is stuck again to (another) tree. This time much higher, totally impossible to climb there. It was a sunday. We stayed there until the wee hours (like 8pm, high sun still: this meridian thing is too much for my time notion), throwing branches trying to get the frisbee to fall, but nothing. We 1 x 1 Frisbee.
      The day after, and the day after that, we came back to the park but again with no success. One could think that in a place flat like the Netherlands the wind is strong, but apparently it is so only when is against you and you are tired of riding your bike. We made some further visits, in one of them a dutch couple even tried to helpe me throw dead tree pieces in the alive tree, but even them having much better aiming skills than I do, we did not succeeded. The score to that time was already like We 1 x 4 Frisbee.
      Evidently (increasingly) losing, we gave it some time. We went taking care of our lives. But a sequence of events injected me the motivation I was lacking. I solved a Program Correctness task much before the due date, we went to Tropkillaz show in the Haarlem, we got a lot of FourSquare points because of that, I finished reading a Paul Erdös' biography, I juggled in the park; this hits sequence gave me the urge to try the next. I drank a coffee and armed myself with a rope and went straight to the park.
      The coffee and the persistence were essential for the success of the operation, as much as the rope. For about one hour, I kept throwing at the tree a stick tied to the rope, trying to hook the tree in such a way I could swing the branch where the frisbee was this time. I developed pratically a science of retrieving flying toys, everything calculated to maximize the precision of the throws and minimize the damage to the poor tree. At some moment I made the frisbee fall for 3 meters. Where it was now would make much harder to get to it using the rope technique, I was running out of daylight, and the desperate situation was asking for a desperate measure. I got myself climbing the tree.
      I, the straight-laced kid who never broke a bone in his entire life, hanging from a tree at at least 6 meters from the ground trying to get back the lost frisbee. I would not dare to go any higher, but the frisbee was still out of my 170cm range. But, as a surprise generosity of chance, right beside me at the distance of a stretched arm was a broken branch that I used to fish the damned frisbee. Moments of pressure went by as I was trying to take the frisbee from the tree to the ground, but when I saw the frisbee finally laying on the grass I heard, in the backgroung of my mind, the triumph song of Airton Senna (pa-pa-paaa, pa-pa-paaa...). I descended from the tree with the sound of imaginary applauses.

      It comes a time to a guy's life when he has to decide whether he's a man or he's a mouse. I could trace numerous parallels with other aspects of Life and Universe, abstract everything to a guy who doing new things he is not used to do, allowing himself to go beyond his comfortable limits, but I think this time I am just going to keep to the old and good Nature versus Man. Man versus Frisbee.

      I am all scratched, whacked from throwing things at the tree, but what the hell, I got the frisbee back.

Tot ziens!

Para olhos treinados. // For trained eyes.

Não tem problema páreo pra persistência ou pra teimosia. // There is no problem too hard for persistence and stubborness.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Koningsdag

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      Escrever tem alguns desafios secretos que o escritor enfrenta sozinho. O texto precisa ser coerente, de preferência com ideias que se encadeiam e complementam naturalmente. A introdução, no entanto, tem ainda a peculiaridade de ter que conectar o Nada ao assunto de que o escritor quer tratar. Entre outras coisas, é por isso que esse post vai falar do Koningsdag.
      Para aqueles que não sabem o que é o Koningsdag, como eu não sabia antes de vir pra cá, a ideia básica é o que segue: era uma vez o dia do aniversário de uma princesa, que em algum momento virou festa nacional (o dia, não a princesa) e mais tarde virou rainha (a princesa, não o dia) e portanto (o dia) recebeu o nome de Koninginnedag (Dia da Rainha). As sucessoras da rainha ao trono mantiveram a data, que continuou tendo o intuito de comemorar o aniversário da rainha. Isso até o ano passado, quando a rainha Wilhelmina abdicou do trono em favor do filho, Willem-Alexander. Logo, 2014 foi o primeiro ano que teve o Koningsdag (Dia do Rei).
      O Koningsdag é o dia em que teoricamente os holandeses celebram o fato de terem um rei, bebendo à sua saúde. Na prática, é o dia em que os holandeses lembram da existência do rei e eles e todos os imigrantes que porventura estão aqui ou que vieram aqui especialmente pela festa bebem à saúde do rei, da rainha, do bispo, do cavalo, da torre e até a de cada um dos 8 peões.
      Para isso, especialmente nesta data é permitido beber bebidas alcoólicas na rua (sim: o país que permite o uso de maconha e de alguns tipos de cogumelos não permite o uso de álcool em vias públicas) e várias tendas as vendendo são montadas na rua. Outra exceção é feita em relação à venda de qualquer tipo de produto: qualquer um pode ir para a rua vender o que quiser, sem precisar de licença para abrir a banquinha. As pessoas que querem fazer isso geralmente se reúnem no mesmo lugar, uma espécie de camelódromo improvisado, e alegremente celebram a vida do rei, a liberdade, e o lucro - principalmente o último.
      Todas cidades da Holanda tem alguma festividade marcada para o dia. Aqui em Groningen foram montados palcos para bandas no Vismarkt e no Grote Markt; entre os dois havia ainda um menor em que só tocavam DJ's. Ouvi falar de outras estruturas no resto da cidade, mas dessas não participei.
      Na verdade, por causa das tendas de bebidas e das bandas, a festa toda soou para mim como um Kerb de Estância Velha anabolizado (Kerb é um tipo de festa que acontece em algumas cidades do sul do Brasil com forte influência germânica), inclusive as músicas! Tocou bastante música de bandinha, só que em holandês.
      Nas semanas que antecederam o Koningsdag, também, a cidade toda se enfeitou pra ver a banda passar e criaram promoções com as ideias recorrentes de "seja um rei!", nas lojas de artigos masculinos, "escolha seu próprio rei!" nas lojas de artigos femininos, e "Feliz Páscoa!" nas coffeeshops (risos). O que não mudava, entre todas as coisas, era que tudo era laranja. Afinal, o laranja é a cor nacional, é a cor da seleção holandesa, é a cor do meu banco daqui, da minha cozinha, é a cor da barba do Van Gogh, é a cor daquela fruta cítrica que vai muito bem com um shot de Southern Comfort e, ademais, é a cor da insanidade.

      Dizem que o Carnaval do Brasil é a maior festa de rua do mundo, mas depois do Koningsdag fiquei em dúvida. Aqui em Groningen já foi sensacional, mesmo com chuva a praça estava cheia; em Amsterdam deve com certeza ser sido coisa de outro planeta.

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      Writing has some challenges that the writer has to deal with alone. The text must have coherence, preferably with ideas that chain and complement each other naturally. The introduction, however, has yet another peculiarity that is having to connect the Nothing to the subject of which the writer wants to write about. Among other things, that's why this post is going to address the Koningsdag.
      To those who doesn't know what the heck is the Koningsdag, the way I didn't know before getting here, the basic idea is as follows: once upon a time there was a pricess' birthday, that at some moment became a national party (the birthday, not the princess), and later when she became a queen (the princess, not the day) and therefore (the day) received the name Koninginnedag (Queen's Day). The queen throne's successor queens (does this phrase make any sense?) kept the date, which continued having the purpose of observing the queen's birthdate. Until last year, when the Queen Wilhelmina abdicated the throne in favour of her son, Willem-Alexander. Therefore, 2014 was the first year ever to have a Koningsdag (King's Day).
      The Koningsdag is the day in which theoretically dutch people celebrate the fact they have a king, drinking to his royal health. On practice, though, it's the day in which dutch people remember of the existence of the king and they and the immigrants that perchance are in Netherlands or that specially came here for the party drink to the king's health, the queen's, the bishop's, the knight's, the rook's and even to health of each one of the 8 pawns.
      For that, specially on this date it is allowed to drink alcoholic beverages in the streets (yes: the mushroom's and weed's use allowing country also does not allow to drink alcohol in the streets, shocking huh?) and many stands selling it are assembled in the sidewalks. Another exception is made relating to any other kind of good: anyone may go to the streets and sell whatever they want to, no need to have a license or something for that. The people that wants to do that usually gather in some sort of an impromptu "camelodromo" (very famous places in Brazil, where all kinds of crap are sold), and joyfully celebrate the king's life, the freedom, and the profit - specially the last one.
      Every city in the Netherlands have something prepared for this day. Here in Groningen were set up stages for bands at Vismarkt and Grote Markt; between them there was another one, smaller, just for DJ's. I've heard about other things going on on the rest of the city, but these ones I didn't participate of.
      Actually, because of all the drinking tents and bands, the party itself resembles to Estancia Velha's Kerb (Kerb is a kind of festival that takes place in some southern brazilian cities with a strong germanic culture), even the songs! They played a lot of the so-called (called so by us, brazilian people) "bandinha" music, but in dutch, of course.
      In the weeks preceding the Koningsdag, also, the whole city got adorned and were created a lot of sales with the recurring ideas of "be a king!", on the men article shops, "choose your own king!", on the women article shops, and "Happy Easter!" on the coffeeshops (jk). What was everywhere, though, was the orange color. After all, orange is the national color, is the color of the dutch football team, of the bank I use here, my kitchen's color, is the color of Van Gogh's beard, is the color of that citric fruit that matches perfectly a shot of Southern Comfort and, moreover, it's the color of insanity.

      They say Brazilian Carnival is the biggest street party in the world, but after this Koningsdag I got skeptic about that. Here in Groningen it was already awesome, the square was crowded even though was raining; in Amsterdam it must have been unbelievable.

Pronto pra sair, mas não tenho calça laranja. // Ready to go, but I don't have orange pants.

Time dos Malitos, só o pessoal são e sério da Albertine, mais agregados. // Malitos Team, just sane and serious people from Albertine plus some friends.

Em outro ponto da festa, o Time da Zuera. Porque brasileiro é foda.  // In another point of the party, the Zuera's Team. Because brazilian people are fucked up.
Tot ziens!

sexta-feira, 21 de março de 2014

Bicicletas

    Esse blog não se propõe a ser um relato completo do que acontece comigo nesse ano, nem tampouco de ser uma coleção de artigos científicos sobre as características da Holanda, como eu já explicitei no primeiro post. No entanto, nenhum relato (mesmo que incompleto) nem coleção de artigos (mesmo que não-científicos) com o nome de Holandês Voador* poderia se chamar assim se não falasse de algo que, aqui, é tão comum e parte do cotidiano quanto respirar. E esse algo, é claro, são as bicicletas, e não maconha como a mente poluída e mal-intencionada de alguns deve com certeza ter pensado.
    A coisa mais importante a se falar sobre as bicicletas é que elas estão em todo lugar. Mesmo que os holandeses sejam um povo muito pouco religioso, eles acreditam na onipresença das bicicletas, e nisso eu também tenho fé. As ruas daqui de Groningen são todas planejadas levando-se em consideração que há mais bicicletas do que pessoas no país. Isto quer dizer que a exceção aqui são as ruas sem ciclovia; no geral, todas tem.
    Existem milhares de variações em bicicletas, para todos gostos, bolsos e necessidades. Tem as para uso na cidade, as para uso em competições e viagens, para mulheres, para homens, para pessoas com bebês, com cesta, com compartimento de carga, com reboque, com banco extra-confortável, com farol que carrega conforme tu anda, com bolsas atrás, uma infinidade. Tem para diferentes tamanhos de pessoas também, o que aqui na Holanda significa alto, muito alto, extremamente alto e “holandês típico”. Já vi modelos de bicicletas que pareciam ter saído do Need For Speed Underground 2, e uma vez babei em uma bicicleta estilo Harley Davidson, cuja compra, pelo preço, estaria condicionada à retirada de parte do fígado e um rim. Alguns lugares vendem acessórios para disfarçar a ferrugem, e não é incomum encontrar bikes hippies que por baixo de todas as flores são na verdade tétano-bikes.
    Outra coisa que chama atenção das pessoas como eu que cresceram em uma cultura carrocentrista, é que há sinaleiras para bicicletas. Um cruzamento típico de duas ruas grandes vai ter as sinaleiras dos carros, as dos pedestres e as das bicicletas. As sinaleiras das bicicletas em um cruzamento ficam verdes todas ao mesmo tempo; então há pessoas indo do ponto A ao ponto B, do ponto C ao ponto D, do ponto A ao ponto C, etc., às vezes até tem alguém indo do ponto A ao ponto A de novo, porque esqueceu alguma coisa em casa (tão eu). Quem observa de fora simplesmente não consegue entender o que está acontecendo; dezenas de bicicletas se cruzando sem se chocar, é fascinante. Para quem observa de dentro, no entanto, é o caos: toda vez que me vejo nessa situação, sinto como se a qualquer momento eu fosse causar um engavetamento de bicicletas. Isso nunca aconteceu, é claro.
    No entanto já me envolvi em um acidente e um quase acidente. O acidente foi um dia em que eu estava em cima do laço para ir pra aula, e a velocidade em que estava dirigindo a bicicleta estava em ressonância com esse fato. Mal saí da quadra da minha casa, entrando na ciclovia olhei para a direção de onde poderia estar vindo bicicletas, a esquerda, e acelerei porque não vi nenhuma. Porém, da outra direção estava vindo uma mulher e eu só não lhe arrebentei a perna porque freei no ultimo instante. Ainda assim foi uma batida considerável. A mulher já tinha um machucado na perna, e isso agravou um pouco a situação, mas eu lhe ofereci ajuda e esperei até que ela parasse de chorar e todos sobrevivemos ao ocorrido, ela com um roxo e eu aprendendo que não se entra numa ciclovia naquela velocidade.
    O quase acidente aconteceu porque alguns lugares daqui oferecem café. Explico: quando estava saindo de um desses lugares, notei a máquina de café e a palavra universal "gratis". Não pude resistir e peguei um capuccino. Sai dirigindo com uma mão só, a outra segurava o capuccino. Eu poderia argumentar que fiz isso porque estava com pressa ou algo assim... mas não. É só porque eu sou uma besta às vezes. Como estava com as duas mãos ocupadas, não pude fazer sinal para avisar que dobraria à esquerda. O carro atrás de mim, vendo que eu não fiz sinal, imaginou que eu não entraria à esquerda e agiu de acordo, quase passando por cima de mim no momento em que eu fui, sem avisar, pra esquerda. Freio, buzina, e na hora em que eu esperava que o cara fosse me bater (não de carro, me refiro a sopapos mesmo), ele só parou um pouco o carro, perguntou se eu estava bem e pediu para eu tomar cuidado. Até pediu desculpas pelo ocorrido! Eu fiquei em choque. Tanto pelo ocorrido quanto pela polidez extraordinária do cara.
Além da polidez que é comum por aqui, é preciso falar também do preparo físico do pessoal da bicicleta. Imagine a seguinte cena: você está lá, pedalando pela sua vida, contra o vento, a perna reclamando da falta de potássio da sua dieta, quando de repente escuta o sinal da campainha da bicicleta de trás, pedindo passagem. Você dá passagem, é claro, porque você nem sempre é uma besta. Quem te ultrapassa? Uma senhora, idade suficiente para ser sua avó, dando carona para a neta, carregando compras na cesta na frente da bicicleta, segurando uma sacola de compras do Jumbo Supermarkt, passando por cima de seu ego e lhe dando uma lição de humildade. Depois das primeiras passa a doer menos.

  Por muito tempo não entendi o porquê de tanta gente ter uma paixão tão grande por ciclismo e tudo que está relacionado. Agora, no entanto, creio que sentirei grande falta disso quando voltar para a Terra Brasilis. Bicicletas tem lá, mas e as ciclovias e as vovós atletas e os motoristas bem-educados? Não dá pra simplesmente levar na mala.

Fim de tarde no estacionamento do Academy Building. Cadê a minha bicicleta??

Knuffel!

* - Ainda preciso explicar o nome do blog, mas isso fica pra outra hora.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Adaptação

Segundo Darwin, sobrevive o bem adaptado às circunstâncias, e as circunstâncias mudam. Por exemplo a galinha, que por causa da domesticação humana adaptou-se e ficou saborosa.
Quando eu vim para cá, tinha ideia sobre algumas das dificuldades que eu encontraria em ter que lidar com tanta gente nova e com uma cultura totalmente diferente da que eu estava acostumado. Acontece que eu não estava totalmente ciente de uma característica minha, bem relevante quando se tem que ser independente em um país novo, fruto da minha criação de filho único e paparicado: eu não sei cozinhar.
Bom, não é que eu não saiba fazer nada; alguma coisa eu sei fazer na cozinha. No entanto, não se pode viver de torrada com ovos mexidos (por mais maravilhoso que esse prato seja quando eu faço; questão de prática), nem de Pringles ou cookies ou Twix (que são bem baratos aqui). É tudo muito gostoso, mas chega uma hora que ou a espécie evolui ou é extinta.
Por isso parti pra internet em busca de ajuda, e meu amigo Jan Luc, que mora sozinho a mais tempo que eu, me ensinou a fazer frango frito, via Facebook.

Seguem as instruções, como eu as segui:

Ingredientes:

- uma peça de frango (embora frango não seja Lego; aqui, por peça, refiro-me àquele corte em que a coxa e a sobrecoxa vêm juntas);
- três dentes de alho (que pode ser bem difícil de achar no supermercado caso você não se lembre o nome em inglês: é garlic; alternativamente, apele para o seguinte pedido: "onde está aquela coisa, parecida com cebola, mas menor, e que quando uma pessoa come demais fica com mau hálito?");
- uma xícara de arroz;
- óleo;
- sal;
- água.

Instruções:

Ponha numa panela um pouco de óleo, sal e um dente de alho picado. Ponha numa frigideira bastante óleo e os outros dois dentes de alho picados. Leve a primeira panela ao fogo (apenas a primeira, porque convenhamos que tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo é pedir para cagar com tudo). Deixe o alho fritar por um momento e então ponha o arroz na panela. Rapidamente coloque água de forma que fique mais alto do que o arroz, e deixe a panela daquele jeitinho com a tampa em cima mas sem fechar completamente.
Nesse momento, cumprimente a chinesa que acabou de entrar na cozinha e mostre pra ela o que está fazendo. Isso é importante para a receita porque no dia anterior a chinesa riu quando soube que você estava jantando sucrilhos.
Assim que a chinesa voltar para seu quarto, prepare a galinha (na embalagem diz "kippenbout") passando-lhe um pouco de sal. Deixe-a esperando na bancada. Ela não vai se importar porque está morta.
O arroz talvez esteja pronto quando a água secar, mas isso não é 100% garantido. Quando a água seca, o processo volta a ser interativo e você fica provando o arroz; enquanto não estiver pronto, acrescente mais água.
Assim que o arroz estiver pronto, leve a frigideira para o fogão, em fogo baixo porque - repitamos - você não tem tanta experiência assim. Deixe a misturinha fritar um pouco, e em seguida acrescente a peça de galinha já temperada com sal à jacuzzi de óleo fervente. Este momento é crítico: você vai se queimar. Conforme-se.
Como a frigideira é muito grande, você vai ter que segurá-la inclinada de modo que o óleo fique mais fundo e em contato com uma maior porção da superfície da galinha. Você deve torcer para que ninguém entre na cozinha nesse momento, porque o jeito que você segura a frigideira para não se queimar é no mínimo cômico. Vire a galinha de vez em quando, e quando parecer pronto você espera mais um tempo e daí está pronto mesmo.

O resultado é um prato de arroz e galinha frita que ficou quase, mas não totalmente, completamente diferente do que quando a minha mãe faz. O arroz ficou um pouco empapado, porque deveria ter ficado mais tempo no fogo e/ou deveria ter recebido menos água. A galinha até que ficou boa, mas mais por mérito dela e do Darwin do que meu. E mesmo assim, foi uma janta bastante decente e, creio eu, muito boa para uma primeira vez.


"Hmmmmm"
Omhelzing!

Adendo (11/02/2014): refiz a receita, agora passando o alho na galinha e a galinha no trigo antes de fritar, e botando menos água no arroz e o resultado foi beeem mais satisfatório.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Primeiras impressões

Eu tive um excelente professor no ensino médio, que foi durante três ou quatro anos um guia para mim e para os demais bobalhões que já tinham tamanho e nada além disso para lidar com a vida adulta que estava a frente. Quando estava ensinando sobre entrevistas de emprego, falou sobre como é importante a primeira impressão que as pessoas tem de nós, e também a primeira impressão que temos delas. Segundo ele, a maior parte da imagem que uma pessoa faz da outra é construída nos primeiros 15 segundos de contato.
Quando cheguei na Holanda, em Amsterdam no aeroporto de Schiphol (que eu não sei pronunciar, mesmo escutando várias vezes o piloto falar a bordo - o piloto era português, então muito pouco do que ele dizia eu entendia de fato) a primeira impressão que tive do país foi mágica: um friozinho gostoso dentro do aeroporto, um frio desgraçado do lado de fora, pessoas passando em todas as direções falando ao telefone em vários idiomas, luzes que acendem apenas quando alguém se aproxima (e os cartazes das paredes afirmam que isso economiza até 50% da energia gasta pelo sistema normal), setas e informações para que mesmo os brasileiros mais perdidos ainda consigam achar o caminho para a estação ferroviária, etc.
Os pontos negativos eu compreensivelmente reprimi por enquanto, é inconsciente. A única coisa que me chamou a atenção de "negativo", as aspas são porque isso não chega a ser negativo, é apenas um aspecto diferente e que me chamou a atenção, foi o jeito das pessoas no trem. Não é aquele contato, as pessoas são bem mais distantes do que estou acostumado. No entanto, se tu pede ajuda para qualquer coisa, ela imediatamente ajuda como pode, e assim que o trabalho está feito ela volta a cuidar da própria vida. Achei interessante.

Pois bem, depois do trem chegamos em Groningen, e já em casa arrumei meu quarto e tomei um banho. Então por acaso passei por dois caras espanhóis (0:01) e me apresentei (0:03). Eles também se apresentaram (0:07), e depois do nice to meet you eu me virei para entrar de volta no meu quarto (0:11) e eles chamaram Hey, Marcus! (0:12) e me convidaram para ir com eles a uma festa que estava sendo dada em outra casa de estudantes internacionais (0:14) e eu aceitei (0:15). E foi assim que eu cheguei à conclusão que o Mestre Jaime estava de fato correto.

Vou evitar ao máximo citar nomes, por isso vou me referir às pessoas por sua nacionalidade ou outra característica. Na cozinha laranja, que é a que eu uso (aqui nesta casa os moradores estão divididos em grupos, e cada grupo compartilha uma cozinha e um banheiro) tem 1 holandês, 1 indiano, 1 luandês, 1 espanhol, 3 chinesas e 1 brasileiro (eu). Como aquela rainha da Inglaterra, podemos dizer que "o sol nunca se põe no território da cozinha laranja".

Omhelzing!

PS: vou abrir uma exceção aqui: um dos espanhóis (que já voltou pra casa, estava apenas visitando) chama-se Jesus. Quem diria hein? Precisei viajar 10600 km para encontrar Jesus. (risos)